A REALIDADE É FEITA NO AGORA
- Gabriela Araujo Caixeta

- 27 de mai.
- 5 min de leitura
Atualizado: 29 de mai.
Onde está sua mente neste exato momento? Inteira no presente ou dividida entre lembranças, desejos, medos e projeções?
A mente humana parece viver constantemente entre passado e futuro. No entanto, a realidade só pode ser vivida no agora. O momento presente é o único tempo real — e talvez o mais sagrado e menos apreciado que temos.
Quando estamos presos ao que já aconteceu ou ansiosos pelo que ainda virá, abandonamos a experiência viva da existência. Perdemos o contato com a realidade.
UMA AVE RARA

Há um amigo que conheci e que cultiva com maestria a arte de viver o presente. Ele sabe atravessar crises com a mente inteira no agora. Há quatro anos convivo com ele, e cada encontro me renova.
Joaquim não aparenta carregar 8 décadas de vida. Parece ter 2 somente. Não pela ausência de rugas, mas pela presença de vitalidade. Ele descobriu o segredo de viver o presente em sua dimensão mais plena.
Mesmo após lutos e desafios, continua aberto a novas amizades. Venceu o câncer e, na aposentadoria, presenteou-se com um quintal na Serra do Japi. Seu trabalho agora é reflorestar a terra. Seu bônus é transformar desconhecidos em amigos e grupos de caminhada em voluntários ecológicos .
Já administrou empresas, viagens, números e responsabilidades. Hoje planta raízes, árvores, frutos e vínculos humanos . Antes burocrata, agora amante da natureza.
Existe nele uma rara capacidade de estar inteiro na vida. Recorda rostos, histórias e detalhes com mais lucidez do que muitos jovens. Conversa com presença. Escuta com alma. Vive sem pressa interna.
Esse meu jovem amigo me ensina diariamente a abandonar estruturas mentais antigas para ouvir pássaros, contemplar árvores e escutar causos simples da vida. Com ele, lembro que viver também é desfrutar.
Cada cliente que atendo é uma aventura humana inspiradora. E Joaquim me lembra que a natureza também é.
Às vezes penso que Joaquim é um iogue e não sabe. Supera os limites do corpo para extrair o elixir do espírito. Carrega a postura de quem compreendeu que a vida é preciosa demais para não rir, dançar, contemplar sombras de árvores e oferecer uma mão amiga a quem chega.
Homem vivo. Homem presente.
Joaquim é ave rara.
Ele me lembra outro amigo especial: Valério Neiva. Após um derrame no Tibete, ergueu novamente o próprio corpo com disciplina e consciência.
Ambos me parecem homens-pássaros.
Almas profundas.
Seres com a chama da presença plena.
Aves raras.
Mentes integradas no único tempo real: o agora.

OS DOIS TEMPOS
Para compreender o presente, precisamos entender que existem dois tipos de tempo:
o cronológico, ligado a horários, compromissos e planejamento;
e o psicológico, composto pelas emoções e significados que damos às experiências.
Nesse sentido, passado e futuro existem principalmente como tempos psicológicos.
O passado vive como memória. O futuro, como imaginação.
A ironia é que ambos só podem ser acessados no presente. Até uma lembrança dolorosa só acontece agora. Até o medo do futuro é sentido agora.
Por isso, o nível de consciência presente altera profundamente a maneira como percebemos passado e futuro.
É aqui que a meditação e a psicoterapia se tornam tão importantes. Elas ampliam a auto-observação, ajudam a reelaborar experiências e fortalecem a consciência.
Curiosamente, animais, crianças pequenas e algumas culturas tradicionais vivem muito mais conectados ao presente. O corpo sente fome apensa no agora. O sono acontece no agora. A criança quer colo no agora. A natureza inteira vive no instante presente.
E estes eres talvez sejam os verdadeiros guardiões do presença plena.
A ILUSÃO DO PASSADO E DO FUTURO
Como lembra Eckhart Tolle:
“Nada jamais aconteceu fora do Agora.”
A vida não está acontecendo depois. Ela acontece enquanto você lê este texto.
O problema não é planejar o amanhã. O problema surge quando transformamos o futuro em promessa de salvação. Quando condicionamos a felicidade a um evento futuro, criamos um estado permanente de espera e incompletude.
Vivemos em função de um amanhã imaginário e deixamos de experimentar plenamente a vida real.

A MENTE DIVIDIDA
Segundo a psicologia psicodinâmica e Eckhart Tolle, grande parte do sofrimento humano nasce da incapacidade de permanecer consciente no presente.
A mente vive aprisionada em traumas, expectativas, arrependimentos, desejos e medos. Em vez de viver a realidade, reagimos automaticamente aos pensamentos.
Nossa biologia foi construída para evitar dor, buscar prazer e repetir padrões conhecidos. O cérebro cria mecanismos de proteção desde a infância — e muitas vezes desde o útero.
Para sobreviver, sermos aceitos e amados, aprendemos comportamentos defensivos. Muitos deles permanecem ativos na vida adulta de forma inconsciente.
Por isso, tantas pessoas têm medo de amar novamente, viajar sozinhas, mudar de vida, crescer ou se expressar. O passado invade o presente e empobrece o futuro.
E é exatamente aqui que a terapia se torna essencial.
A psicoterapia ajuda a identificar padrões inconscientes, dissolver traumas, reelaborar experiências e recuperar a presença perdida. Ela separa o que é passado do que é realidade atual.
Quantas pessoas deixam de viver por causa de dores antigas?
A CULTURA DA DISPERSÃO
Nossa cultura também estimula a fragmentação mental. Vivemos hiperconectados, acelerados e constantemente distraídos.
A lógica do consumo depende de uma mente ansiosa, insatisfeita e desconectada do presente.
Viver o agora não significa abandonar objetivos ou responsabilidades. Significa recuperar consciência enquanto a vida acontece. Significa interromper o automatismo.
Essa percepção aparece em diversas tradições antigas: o budismo fala sobre atenção plena; o hinduísmo sobre dissolução do ego; o cristianismo místico sobre a presença divina no instante presente.
O PODER DO AGORA
O agora também é um estado de consciência.
Quando alguém está verdadeiramente presente, o ruído mental diminui e a realidade se torna mais vívida. Pequenas experiências ganham profundidade: ouvir a chuva, respirar, caminhar, observar árvores, sentir o vento.
Arte, esportes, hobbies, meditação e natureza ampliam essa experiência porque trazem a mente de volta ao corpo e à percepção direta da vida.
As crianças e os animais são mestres nisso. Eles brincam, observam e sentem o hoje sem carregar o peso constante do ontem e do amanhã.

A IMPORTÂNCIA DA TERAPIA
A terapia ajuda a dissolver os fantasmas mentais que sequestram o presente.
Com um psicoterapeuta de confiança, você reconhece padrões inconscientes que afetam seus relacionamentos, emoções e escolhas. Desde impaciências cotidianas até bloqueios afetivos profundos.
A análise permite compreender medos, projeções, culpas e comportamentos repetitivos. Ela fortalece a autorregulação emocional e amplia a liberdade interna.
Existe também uma neutralidade preciosa nesse processo. Diferente das relações pessoais, a terapia não gira em torno das opiniões do outro, mas do seu desenvolvimento emocional.
A psicoterapia não apaga o passado. Ela impede que ele continue dirigindo sua vida sem consciência. Não é um caminho simples. Exige coragem, humildade e honestidade. Mas talvez seja uma das formas mais profundas de recuperar paz, presença e potência real.
Ela nos devolve ao corpo, à respiração, à intuição e à vida.
Da mesma forma que nos ajudam as crianças;
O acariciar de dogs and cats.
Como nos ensina a meditar Valério Neiva.
Como partilha a natureza o viver de Joaquim.
E pasme, como você também já foi um dia, em seus três anos de idade: leve, inteiro(a), presente e absolutamente entregue à presença plena do Ser.

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